Seus

sáb, 22 \22e junho \22e 2013

Meus? Não. Seus. O que vocês pensam quando saem às ruas? O que pensaram? Por que estão saindo? Por que saíram?

Fantoches, sem (auto)crítica, tampouco (auto)consciência. Mas saem às ruas pra poderem comprar (auto)móveis mais baratos. Impostos. Importo. Exporto. Movimento avesso, parado, travesso, atravesso e não fico.

Ontem, pessoas que se envergonhavam do lugar, da cidade, do país. “Ahh, não acredito que vivo num lugar desses!”. Hoje, o quê? Classe média, mediana, medíocre, saem às ruas mas não saem de si. Pensam que estão na revolução, convolução, degustação, só se for de incoerências mal pensadas e digeridas, e depois vomitadas. Aquela cartolina, aquele pincel atômico que quer ser neutro(n), que não quer ter partido, repartido e desunido, desnudo, hipócrita, incitando a violência através da mesma boca suja e maldita que escarra hinos e expressões estapafúrdias.

Você, sua idiota que saiu pensando que estava fazendo muito, com seu celularzinho indecente, filmando e fotografando e regozijando-se a cada tuitada e facebookada, sem pedir permissão e nem se preocupar com o prisma de fibra-ótica, tendo orgasmos múltiplos com a síntese do descomprometimento dessas redes e mídias ditas sociais (mas que não fazem mais que anti-socializar e reunir num mesmo grupo Proudhon e Plínio Salgado), você é a massa, a farinha e o fermento, a manobrada e usada e cuspida e feliz. Fique feliz. Faça o que eu mando.

Enfiem seus orgulhos nos devidos lugares. E todos vocês, que a toda hora fazem questão de afirmar que estão construindo a história, mudando o país, consertando as coisas, e que por isso vão fazer parte dos livros, pensem muito, mas muito bem. Aliás, pensar vocês não sabem, seus idiotas, porque se soubessem esse caldo não teria desandado e não estaria fedendo tanto, mas tanto. Os livros de história, seus completos babacas, podem não ser lugares tão bons.

Não há mais o que falar. Nem há mais o que escrever, ou ouvir. Agora a poeira baixa, e eu vos agradeço, sou muito grato mesmo, por terem mostrado os grandes e completos idiotas medíocres que vocês são. Assim fica mais fácil.

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Computando pensamentos

ter, 11 \11e junho \11e 2013

O cara é de um país distante. Ele não é muito legal, acha que sabe tudo, e, principalmente, acha que os outros não sabem nada.

A conversa flui com muita dificuldade, pedidos de ajuda num mar de dúvidas e incertezas que me assolam. Não é assim que você quer que seu trabalho “progrida”, se é que você pode chamar isso de progresso. Mas mesmo assim, depois de tentar de todos os jeitos fazer com que aquilo pelo qual você batalhou durante toda a vida não vá embora. Às vezes penso que seria melhor ter ido vender bananas numa praia deserta, mas não tenho muita certeza de nada.

Depois do pedido de ajuda, e depois da ajuda recebida (mesmo sem a certeza de que ele realmente gostaria de ter ajudado), começam as indiretas, ou piadas, ou ambas. A linha muito fina que separa as duas praticamente inexiste, e a pessoa sempre tem a desculpa na ponta da língua, pronta pra dizer “Olha, não foi aquilo que eu quis que você entendesse.”. Certo. Então o que foi, exatamente, que você queria que eu entendesse? Por que é tão difícil se comunicar com pessoas, e tão simples fazer um tratador de sinais multi-threaded em C? Tenho impressão de que nunca conseguirei realmente entender essas limitações.

Não dá. Desisto. Vou parar antes de enlouquecer. Mas antes que eu consiga apertar o botão e fechar o buffer, ainda consigo vislumbrar o sofrimento, e ter pena do bloco frio que se apossou do coração alheio. “Moro longe de tudo e de todos”, diz ele, “passo dias a fio sem conversar com ninguém, e mesmo assim ainda acho que não é suficiente.”. Pena. É o que sinto de mais puro no momento.


Uma passagem, por favor

sáb, 06 \06e abril \06e 2013

Quero ir embora.  Não, não adianta mais me pedir pra ficar.  Sei que não fui uma boa visita, e não me venha dizer o contrário!  Já chegou a hora, aliás, já passou da hora, e agora é muito mais tarde do que você ou eu pensamos.  Está ouvindo esse solo de blues na soleira da sua porta?  É meu convite, meu chamado, minha sina, é tudo aquilo que me faz vir aqui e depois querer voltar ao lugar de onde tinha saído.

Não tenho família.  Deixei todos num canto, cuidando das suas respectivas vidas, e das vidas das outras pessoas envolvidas.  Não seria bom trazê-los, já nem sei como voltar pra lá, e pra ser sincero é bem capaz que eu tenha esquecido por querer.  Não dá pra saber agora o que era bom ou não, pensando assim é muito provável que nada seria bom, mas quando penso sem compromisso parece que era tudo maravilhoso.  São essas peças que a vida nos prega.

Se eu gostei de ficar?  Claro!  Gostei tanto que agora quero ir embora, só pra sentir muita saudade e querer voltar depois da primeira curva do caminho.  Não precisa se preocupar, você fez tudo aquilo que esteve ao seu alcance e, ouso dizer, até mais do que o que deveria!  Mas você me conhece, sabe como eu sou, e sabe que aquelas conversas durante o jantar eram apenas superficiais e jamais, em momento algum (pra ser um pouco pleonástico), passou pela minha cabeça levar a sério tudo aquilo que foi dito ou maldito.  Eram apenas divagações e conjecturas de um mundo à parte, no qual viver é um martírio e, dormir, uma recompensa.

Bem, então acho que é isso.  Está tudo falado, o dito pelo não dito, o combinado que não custo quase nada.  Preciso ir buscar minhas coisas.  Onde elas estão?  Pra dizer a verdade, eu também estou um pouco confuso e também não sei.  Talvez eu não tenha trazido nada.  Você se lembra se eu entrei carregando algo?  Uma mochila talvez?  Ou um caderno de pensamentos?  Sim!  Havia um caderno, agora me lembro, um caderno de pensamentos e coisas importantes.  Onde foi que eu deixei?  Estou achando que caiu da janela enquanto eu me debruçava para ver um passarinho trazer, pacientemente, ramo por ramo, até completar seu ninho.  Naquele momento, me pareceu a coisa mais importante sendo feita no mundo, e eu me distraí, e deixei meus pensamentos irem embora.


Nenhum e ninguém

ter, 12 \12e fevereiro \12e 2013

As miragens que vejo são reais.  Os prazeres que sinto pertencem a outro, que não conheço.  E quando, na virada da maré, a vida nos presenteia com linhas não tão tortas quanto imaginávamos, o monstro esconde-se nos calabouços da alma.

O que vai ser de nós, a não ser o pó estelar desprendido dessa vã filosofia?  Por que, quando nos sentimos vivos, o mundo nos dá socos e pontapés para nos trazer de volta à realidade?  Repentinamente tudo muda, as coisas vividas melhoram e pioram de acordo com um deus-dará de sabe-se-lá-o-quê.  Como entender a morte de uns, como contemplar a vida de outros?

Assim, caindo e gotejando como um pássaro rouxinol, cantando feliz dentro da gaiola construída por minhas próprias mãos, eu vejo o trem passar e corro para alcançá-lo.  Um político honesto, sem pretensões maiores que aquelas pelas quais se candidatou há 27 anos atrás, acena da janela e deixa o lenço da despedida cair descompromissadamente da mão.  No pano, um bordado simples e arrebatador, uma roda de madeira com seis aros inteiros e um pela metade, com uma área um pouco maior que pi érre ao quadrado, parece imortalizar a alma humana usando apenas algumas linhas de costura.  Não era aquilo que ele queria, mas era o que existia naquele momento.

A sensação de saciedade logo dá lugar ao vento frio e gelado que antecede o medo.  Calma, diz o maquinista, não tenha medo daquilo que não se pode ver.  Mas se é justamente por não poder ver que eu tenho medo!  Enfim, uma luz se acende.  Agora eu posso ver.


Misery

seg, 17 \17e setembro \17e 2012

Breaking words instead of hearts

Bringing pain instead of love

Turning red into blue

And blues into all of the above

 

The misery, hurting like a thunder

From the sky and black clouds

Is nothing but what you wished for

And yet all that is to worry about

 

All the same, he struggles through the days

Trying and doing and feeling

Being, but not seeing

Cursing and blessing everyone’s ways

 

Now, can you hear the silence?

It’s loud, screaming out there

Calling for your name, in the absence

Emptiness that will lead you to nowhere.


Muy amigo

ter, 21 \21e agosto \21e 2012

Da última vez que se viram, não foi tudo bem.  Parecia que havia algo no ar, ou na expressão que se desenhava em seus rostos.  Ele ainda não sabia, mas a amizade já não estava presente naquela mesa.  O tempo, implacável e desgastante, finalmente fizera mais uma vítima.

A história dos dois, resumidamente, é muito longa para qualquer livro.  A afeição que sentiam, e a cumplicidade que havia se desenvolvido e amadurecido durante anos de convivência eram como âncoras.  Mas toda âncora enferruja, e toda ferrugem corrói.  A amizade deixou de ser cultivada, talvez mais por um do que por outro, mas no fim de tudo não importa quem leva a culpa.  O que importa, ou deveria importar, são as consequências.

Hoje, numa sala fechada, numa madrugada seca e fria, um deles senta-se e pensa, com lágrimas nos olhos, o que aconteceu.  No fim das contas, estamos todos sozinhos.


Boiando

dom, 13 \13e novembro \13e 2011

– Você não vai acreditar no que aconteceu!

– Não?

– Não!

– Bem, se você não falar, realmente fica difícil acreditar.

– Sim, sim!  Você se lembra daquela vez em que estivemos navegando?

– Há quase 1 ano?

– Exato!

– Sim, e aí?

– Pois então, na hora eu não disse nada, mas achei ter visto algo cair na água.  Alguma coisa que parecia viva, saltou do barco e discretamente caiu na água.

– Ahn??

– É, eu sei que é difícil de entender, mas tente acompanhar meu raciocínio, você vai ver onde quero chegar.

– Tá, estou com tempo mesmo…

– Ótimo.  Bem, depois que vi o “objeto” cair na água, achei que fosse apenas alguma ilusão ou algo assim.  Afinal, estávamos no mar há tanto tempo, sem comer direito, só bebendo aquela cerveja horrível e quente, que pensei estar alucinando ou algo assim.

– Entendo.  Ainda tenho revertérios quando lembro da cerveja.

– Nem me diga!  Mas então, depois de mais dois dias nós voltamos pra casa, cheios de peixes e garrafas vazias.  Acho que não saímos mais pra pescar depois daquilo, né?

– Não que eu me lembre.  Mas ainda não entendo onde você quer chegar.

– Calma, cada detalhe é importante.  Eu fiquei com aquela cena na cabeça, via uma espécie de cauda terminando seu movimento serpenteante e caindo na água.  Não conseguia ver o resto daquela coisa, somente essa cauda.

– Hmm, uma cobra?  No nosso barco?

– Não, nem seria possível.

– Por quê?

– Não acho que uma cobra tenha aquela… hmm… textura.

– Como assim?

– Aquela coisa parecia feita de vidro, era quase transparente, difícil de ver.  Além disso, tinha detalhes que eu não me lembro de ter visto em nenhuma cobra.

– Você viu tudo isso num relance, e não me disse nada?

– Na verdade, não.  Naquela hora eu não estava certo se tinha realmente visto algo.  Mas ao longo do tempo fui tendo sonhos com aquilo, que me permitiram olhar de uma perspectiva diferente, quase como uma terceira pessoa.

– Você tá bem?  Quer que eu chame um médico?

– Não, cara!!  É sério!  Você tem que me ouvir, é muito importante.

– Ok, continue então.  Mas não me critique se eu começar a duvidar de você daqui pra frente.

– Tá bom, você vai ver, não vai ter motivo pra dúvida.  A questão é que eu finalmente descobri o que era aquilo.

– E….?

–  E era um massupinório.

– Massup…  O que foi que você disse?

– Massupinório.

– Que diabos é isso?

– É o nome daquilo que eu vi caindo na água, com seu rabo serpenteante.

– Mas eu nunca ouvi isso antes.  Isso é algum termo taxonômico?

– Não.

– Então o quê?

– O que o quê?

– Que porcaria é esse Massupinário?!?

– É massupinório.

– Que seja.  O que é isso?  Que tipo de animal, objeto, sei-lá-o-que?

– Ah, isso eu já não sei.