Café

“Depois da tempestade, a calmaria.  Visivelmente abalado, o sentimento vem aos poucos e domina todos os cantos obscuros da alma.  Já não sou eu quem manda.  Já não sou.”

Ando pela Nylandsveien, olhando as vitrines de lojas dentro das quais nunca entraria, reparando em detalhes de roupas que jamais usaria.  Não posso me dar ao luxo de usar a visão para detectar o perigo que está iminente, então foco minha atenção nos outros sentidos, audição principalmente.  Pessoas agasalhadas passam por mim sem notar meu rosto, o que é bom.  Ficam mais preocupadas no barulho das sirenes chegando ao hotel, tentam invariavelmente descobrir o que houve, logo uma multidão se forma em frente ao local.  Estou no fluxo contrário, mas tenho um bom motivo:  meu crachá de doutor em um hospital local vale mais que qualquer explicação.

Viro à direita, escolho uma rua mais tranquila, e logo avisto o café.  Lembranças retornam à cabeça, uma onda de sentimentos e sensações à flor da pele.  “Foi lá que tudo começou, e hoje vai terminar”, foi meu primeiro pensamento.  Sento-me, peço o de sempre – água com gás, Kanelbulle, vinho.  Abro o notebook, estabeleço a conexão e envio os arquivos necessários.  Ambos os lados confiando em números primos que supostamente protegerão o conteúdo.  Desconecto, fecho a tela que reluz em meus óculos, e divirto-me com um casal de pombos disputando um pedaço de pão na calçada.  Tenho ainda algumas horas antes do vôo, e com a sensação de dever cumprido permito-me relaxar um pouco.

Ficar perto do local do incidente sempre foi minha tática principal.  Contraditória a todas as regras vigentes no mundo da segurança, essa escolha foi tomada desde cedo, com base em meu antigo mestre.  “Ficar perto do fogo alivia a queimadura”, dizia ele.  Certa vez resolvi testar esse ensinamento na prática e acabei com uma cicatriz.  Mesmo assim, sempre depois do incidente, ando pelas redondezas como mais um transeunte.  A curiosidade às vezes estampada no rosto, ou a indiferença motivada pela pressa – como foi o caso desta última vez – acabam ajudando.  E desta vez, com a indiferença impressa em meu semblante, olho para cima e imagino de onde vieram e para onde estão indo as nuvens que passam.

Ouço o barulho de uma cadeira sendo puxada, couro raspando contra madeira quando a pessoa senta-se à minha frente.  Endireito o olhar, o rosto já não conseguindo manter automaticamente a expressão sem sal de alguns segundos atrás.  Na mente, um pensamento rápido desliga os circuitos do relaxamento.  Ela percebe, e com um sorriso sincero e um olhar penetrante passa a mão em meu rosto.  “Devia ter me preparado”, penso.  Agora é tarde.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

You are commenting using your Twitter account. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

You are commenting using your Facebook account. Sair / Alterar )

Connecting to %s

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.