“O começo é sempre complexo. Nunca se sabe pra onde olhar, o que fazer, ou – principalmente – o que não fazer. Ninguém nos ensina, não há manual. Auto-conhecimento é uma palavra composta de duas outras, mas de inúmeros e intrincados significados…”
Saquei a arma sem pestanejar. Era uma semi-automática, fabricação sueca, produção limitada e precisão altíssima. Havia sido treinado para reagir assim: sem pensar. “Seu maior inimigo é você mesmo”, dizia meu antigo mestre, provavelmente citando alguma passagem de um livro de bolso comprado com seu salário pífio de faxineiro de açougue. Dadas as devidas proporções, eu sabia do que ele falava. A razão, tão aclamada “vantagem evolutiva” que humanos possuem sobre outros seres habitantes deste planeta, muitas vezes pode te atrapalhar e, neste caso em específico, poderia ter me custado a vida.
O tiro saiu conforme planejado, a bala viajando a incríveis 450 metros por segundo, atingindo o alvo antes que eu pudesse piscar por conta da reação ao barulho do disparo. Não usava silenciador, não era meu tipo. Achava um pouco ridícula a aparência da arma com o silenciador, aquele objeto destoante, incômodo e de formato duvidoso. Além disso, meu prazer consistia não só em atirar, mas em principalmente ouvir o tiro. Aquele som bruto, alto e por vezes até incômodo, dizia-me que a arma havia feito seu papel, e que o ato culminara no efeito desejado. Colocar um silenciador neste momento, na minha modesta opinião, era semelhante a silenciar o ronco de um Porshe.
O alvo, na iminência de cair e suspirar pela última vez, ainda teve fôlego para proferir alguns xingamentos contra quem vos escreve. Não me dei ao trabalho de ouvir, em parte porque estava um pouco surdo com um disparo tão a queima-roupa, e em parte porque não gosto de pensar que um moribundo não gosta de mim. Superstições bestas, eu sei, mas que se há de fazer.
Pulo o corpo, corro até a porta, fecho e tranco por fora. Resolvo diminuir o passo, e ando calmamente pelo corredor do prédio, uma mão no bolso e outra ajeitando a gravata. Aperto o botão, espero o elevador, desço, vou ao telefone público que fica ao lado do hotel e chamo a polícia. Aproveito a ocasião e, para não sair da rotina, ligo para minha mulher. Não conseguiria ficar tranquilo enquanto não fizesse isso.
Superstições, eu sei…