Sonho acordado. Sonhei, dormi, fingi estar absorto no meu sétimo sono, mas na verdade estava apenas… fingindo.
Estava numa rua. Deserta, como era de se esperar. Três da manhã, tempo nublado, luzes de sódio iluminando as listras no chão. Na calçada, papéis jogados e lixeiras vazias. Eu estava procurando algo, mas era difícil dizer o quê. Talvez uma pessoa, ou um objeto. Forçando a memória, admito que era uma pessoa. Estava lá, parado, numa madrugada solitária, procurando uma pessoa. Quem? Será que eu sabia, ou será que estava apenas esperando ela aparecer pra dizer “Ah! Que bom que você chegou!”? Não sei dizer. Talvez soubesse, talvez estivesse apenas me enganando e dizendo a mim mesmo que qualquer pessoa serviria, mas sabendo no fundo que apenas aquela pessoa bastaria.
Olhei para o relógio. Três e vinte, a quarta-feira começando, o dia mais “chato” da semana, e eu com minha ansiedade pra encontrar aquela pessoa. Ouço um carro passar ao longe, avançando o sinal vermelho com a confiança que só os motoristas das madrugadas possuem. Eu, por ser um cara de hábitos pacatos, mal tenho coragem de atravessar a rua sem olhar para os lados, mesmo nessa hora. O medo de morrer é instintivo, algo que não escolhemos ter ou deixar de ter. Mas nessa hora, eu tenho medo de ficar a madrugada toda esperando, e a pessoa não aparecer.
Divagações passam pela minha cabeça. O que a pessoa estaria fazendo? Por que estaria demorando tanto?!? Não tenho mais paciência, apesar de ser mais de três da manhã e eu não ter absolutamente nada pra fazer. Resolvo esperar mais um minuto, e penso comigo mesmo que, se aquele semáforo ficar verde antes de eu conseguir contar até 10, vou embora e desisto da espera. No cinco, eu vejo o verde. Pronto, chega, não espero mais, essa pessoa que se dane! Saio resmungando, chutando os papéis jogados no chão, desviando das lixeiras, olhando para os lados antes de atravessar. Quando estou longe, resolvo olhar pra trás mais uma vez. Alguém chega apressadamente no lugar onde eu estivera até pouco tempo. Forço a vista, querendo saber quem é, como é essa pessoa que me fez esperar tanto e não apareceu. Vejo-me, ao longe, chutando papéis e desviando de lixeiras.